terça-feira, 2 de maio de 2017

O LIVRO DO MÊS - MAIO

A professora Teresa Seco colabora este mês com o Clube de Jornalismo. Ela sugere-nos um livro de Adília Lopes, intitulado Bandolim.

É difícil de definir, este livro. Não é um livro de poesia, mas emana poesia; não é um livro de memórias, mas elas perpassam os textos; não é um livro sobre mestres, mas eles povoam a obra.
Bandolim é um conjunto de versos, de recordações, pequenos achados encontrados ao acaso, uma anedota contada por um amigo, uma máxima de José Craveirinha, de Camilo, de Pessoa ou de Camões, uma frase ouvida a um sem-abrigo numa rua de Lisboa, ou a uma trisavó, ou ao vizinho do lado. A sua escrita oscila entre a ingenuidade e o despudor, entre a erudição e a sinceridade, entre o proibido e o consentido. Feito de associações livres, de rimas infantis de idiomas estrangeiros e sobretudo de jogos fonéticos, este livro provoca um efeito de estranheza.
Aparentemente coloquial e naïf, Bandolim comprova a inteligência e a lucidez da sua autora, com a ironia, o humor e a intencionalidade próprios dos grandes pensadores.
Neste livro todos os textos estão datados e a maior parte tem um título.

Alguns textos
LUA-DE-MEL
Uma vez, num café, ouvi um rapaz a desabafar com outro, estava atormentado, ia-se casar e ainda não tinha decidido onde ia passar a lua-de-mel, se no Egito se no México. Sartre diz que não há angústia existencial quando se está na pastelaria a hesitar entre um mil folhas e um éclair de chocolate. Aquela lua-de-mel, no México ou no Egito, parecia à partida um frete. Pensei que, quando se está de facto apaixonado, se passa uma lua-de-mel deliciosa na Praça do Chile.
11/3/15
(In Bandolim ed. Assírio e Alvim, pág. 18)

A net é um sorvedouro do tempo, disse-me uma poetisa francesa.
12/9/15
(Op. Cit.,pág. 170)
CINÉFILA
A tia Ireninha nasceu nos anos 20. Dizia que o ator Tyrone Power era “o Tira o pull-over!”. Era uma coisa que se dizia no tempo dela, no tempo do Tyrone Power.
1/1/15
(Op. Cit., pág. 31)
FARMÁCIA
Um vizinho meu diz da casa de uma vizinha que tem tudo muito limpo e arrumado: “parece uma framácia”. Isto é tão engraçado!
6/6/15
(Op. Cit., pág. 40)
JUSTIÇA
A minha mãe ensinou-me assim: quando atravessamos uma rua e o condutor do carro que vai a passar pára para nós atravessarmos, nunca agradeças. É obrigação do condutor parar. Os peões têm prioridade. É um direito. Um direito nunca se agradece.
18/6/15
(Op. Cit., pág. 64)

ON NE DIT PAS…ON DIT…
Não se diz atelier                            diz-se oficina
Não se diz dossier                           diz-se arquivador
Não se diz placard                           diz-se expositor
Não se diz envelope                        diz-se sobrescrito
Não se diz soutien                            diz-se estrofião
Estrofião só pode ser um palavrão.
12/7/15
(Op. Cit., pág. 77)

DUAS INTRUJONAS
Nunca tive pesadelos e nunca tive dores de cabeça. Uma vez uma médica psiquiatra não percebeu nada do que eu lhe disse, não trabalhou, mandou-me tomar Surmontil, um remédio para não ter pesadelos.
Uma vez uma cabeleireira impingiu-me spray para o cabelo para eu pôr quando estava na praia. Eu nunca ia à praia.
29/7/15

(Op. Cit., pág. 117)

Teresa Seco 

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