segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Relatório de Leitura de um Conto

 “O velho, o rapaz e o burro”
                                                                                    
 Autoria:
Soraia Ferreira Ramalho

Data: 30 de outubro de 2017


Índice

                                                                                                                                                     
   Introdução


Ø Elementos paratextuais …………………………................ 3

Ø Porque escolhi este livro? .................................................... 4

Conto ……………………………………………………… 5-8

Análise do Conto

Ø Características Básicas …………………………………… 9

Ø Recursos Expressivos …………………………………….. 10

Ø Mensagem do Conto ……………………………………… 11

Bibliografia …………………………………………………. 12

Conclusão …………………………………………………… 12




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Introdução

            Este trabalho foi realizado no âmbito da disciplina de Literatura Portuguesa, constituindo o PIL do mês de outubro. Trata-se de um conto tradicional português e é, sem dúvida, um regalo para quem o lê pela primeira vez e também para quem o relê, recordando belos momentos da sua vida. Este livro pertence à coleção “Contos Portugueses”, histórias que encantam crianças, jovens e adultos.
            Apresentam-se, de seguida, os elementos paratextuais do livro.



Título da obra: “O velho, o rapaz e o burro”
Data de publicação: Não referida no livro. 
Texto: Elsa Pestana Magalhães
Não existe muita informação sobre a escritora online. Descobri apenas que é natural de Lamego, estudou no Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho e frequentou a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, cidade onde vive atualmente.
Ilustrações: António Salvador
Editora: Girassol Edições, Lda
Este livro contém um só conto e não tem capítulos.
Livros da mesma coleção: “O peixinho encantado”, “O cavalinho Arco-Íris”, “Palavra de Rei não volta atrás”, “História da Carochinha” e “O macaco sem rabo”


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Porque escolhi este livro?

Há uns fins de semana, andava eu a “dar uma volta” ao meu quarto com a minha mãe, quando reparo num livro muito bem escondido no fundo de uma gaveta da minha mesinha de cabeceira. A capa e o título pareceram-me familiares; no entanto, não me recordava da história. Em menos de 10 minutos li o pequeno livro que fez parte da minha infância. Que minutos preciosos, que história deliciosa! Rapidamente me vieram à memória as noites em que o meu pai ainda dormia comigo e, cansado de mais um dia de trabalho, cedia aos meus pedidos insistentes de “só mais uma história, por favor!”.
Cheia de saudades desse tempo, decidi que não podia voltar a colocar o livro no fundo da gaveta, como se de algo insignificante se tratasse. Tinha de arranjar forma de trazer de novo essas belas noites para o presente, e depressa concluí que a disciplina de Literatura era a mais indicada para tal. Pensei “porque não?” e aqui estou eu, a fazer a análise do meu querido conto “O velho, o rapaz e o burro”.
  
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Conto
“O velho, o rapaz e o burro”

Iam um velho chamado Florêncio e um rapaz chamado Florindo pela estrada fora a caminho da feira. Com eles – toc-toc-toc – ia o burro Flor com os alforges carregados de cereais para serem vendidos ou trocados por outros artigos, pois assim se faziam os negócios naquele tempo.
O burro Flor caminhava mansamente – toc-toc-toc – e, a seu lado, o velho Florêncio e o rapaz Florindo seguiam a pé, assobiando e cantarolando, enquanto admiravam a Natureza. De vez em quando passavam à conversa sobre os negócios que haviam de fazer. É que o Florindo ainda era muito novo e não conhecia as estratégias comerciais e o velho Florêncio aproveitava a caminhada para o ensinar.
Nisto passam por eles umas pessoas que também iam à feira e que vendo o velho Florêncio e o rapaz Florindo a pé e o burro Flor só com a carga comentam entre si:
– Olha o disparate! Vai o velho e mais o rapaz a pé e o burro tão leve. Eles haviam era de ir os dois no burro, que para isso é que servem os burros!
O velho Florêncio e o rapaz Florindo olham um para o outro e diz o velho:
– Sabes o que te digo, Florindo? Eles têm razão. O burro Flor pode bem connosco. Anda daí, montemos e escusamos de nos cansar.
E – toc-toc-toc – lá vão eles – toc-toc-toc –, ambos a cavalo.
Mais adiante, cruzam-se com outro grupo de caminhantes. Oh, estão a cochichar entre si! Que dirão? O velho e o rapaz apuram os ouvidos e que ouvem?
– Quanta insensibilidade, quanta maldade! – diziam os caminhantes. – Não basta o burro já ir carregado com os alforges cheios e ainda tem de levar aquele velho pesado e mais o rapaz, que também não há de pesar pouco. Certo era ir o rapaz no burro, que é mais leve e ainda fracote, e o velho, que é mais forte e pesado, a pé.
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O velho Florêncio olhou para o rapaz Florindo, o rapaz Florindo olhou para o velho Florêncio, e este decide:
– Pois não é que eles têm razão?! Isto, de facto, é carga a mais para o pobre burro Flor, coitadinho! Vais no burro e eu, que sou mais pesado, vou a pé.
Desce do burro o velho Florêncio, fica montado o rapaz Florindo e, certos que ninguém tinha agora nada a criticar, continuam no seu caminho.
Isto era o que eles pensavam, mas não foi o que aconteceu.
Andam mais um par de quilómetros e lá vêm outras pessoas e lá ouvem novos comentários também:
– Estaremos a ver bem? – diziam os populares. – O rapaz, um jovem com muito boas pernas para andar, vai no burro e o velho, cansado e fraco pela idade, vai a pé?! Que mau exemplo para o rapaz! Quem devia ir a pé é o rapaz; o velho é que precisa de ir montado.
O velho Florêncio e o rapaz Florindo entreolharam-se, cada vez mais confusos:
– Ó Florindo, meu rapaz – disse o velho –, esta gente está cheia de razão. Vens tu para o chão e vais a pé e quem vai a cavalo no burro sou eu. Assim já ninguém terá nada a dizer.
Mais uma vez os dois companheiros – o velho e o rapaz – deixam-se ir pela opinião dos outros. Eles tentavam, a todo o custo, não dar ao povo motivos para os criticar e falar deles.  Ai, ai, ai, quanta preocupação com o que os outros pudessem pensar.
Neste anda e para, vai a pé vai a cavalo, com tantas trocas e baldrocas, acabaram por perder muito tempo no caminho. A feira estava a começar e eles ainda tinham um bom bocado de estrada até chegarem ao seu destino. Foi quando mais uns quantos que passavam por eles pararam a olhar bem para aquele trio – o velho, o rapaz e o burro –, torceram o nariz, abanaram a cabeça e disseram uns para os outros:

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– Coitado do burro! Parece tão fraco, não basta a carga dos alforges e ainda tem de levar aquele velho pesado. Vê-se mesmo que tem grande dificuldade em andar. Vá lá, vá lá, que pelo menos o rapaz vai a pé…!
– Seus malvados! Seus insensíveis! Desce do burro, velho pesado! – gritavam para o velho e o rapaz. – Como têm coragem para carregar tanto o pobre burrinho?!  Vamos chamar a “protetora dos animais”, vamos chamar a guarda, vamos chamar o padre, vamos chamar o regedor, vamos tocar o sino a rebate, vamos… vamos… vamos… – aquilo é que era lançar ameaças! Na verdade todos falavam, falavam, mas não sabiam nada do que se passava com o trio Florêncio, Florindo e Flor.
Agora é que o velho e o rapaz não estavam a perceber nada. Afinal o que é que o povo queria? Quando iam os dois a pé, falaram; quando iam os dois no burro, falaram; quando ia o rapaz no burro e o velho a pé, falaram; quando ia o velho no burro e o rapaz a pé, falaram. Mas que grande confusão!
Desanimados, o velho e o rapaz sentaram-se numas pedras à beira do caminho, calados, a pensar. O velho riscava o chão com uma varinha, o rapaz olhava para o ar.
Ora esta, esta agora! Que problema complicado! Parece não ter solução.
E assim ficaram um bom bocado, mudos e quedos, até que o velho se levanta, empertiga a barriga, puxa da sua voz grave e, com ar douto, diz:
– Ó Florindo, olha lá, meu rapaz, então que estamos nós a fazer aqui, preocupados com o falatório dos outros? Mas, afinal, quem é que sabe da nossa vida? Quem é que sabe o que nos convém? Quem é que sabe o que andamos a fazer e porque fazemos desta ou daquela maneira?
– Tem vossemecê muita razão – respondeu o rapaz.
– Quando começámos a viagem decidimos que ao burro Flor bastava levar a carga e que eu e tu seguíamos a pé, que até nos faz bem à saúde, não foi?
– Foi sim, senhor! – respondeu o rapaz.

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– Mas o que temos vindo a fazer é ir sempre pelo que os outros dizem, não é?
– É sim, senhor!
– E o que ganhámos com isso?
– Não sei, não, senhor!
– Ora pensa comigo: fizemos tudo para calar a boca do povo, mas ainda não conseguimos contentar a todos, não é? Então que te parece tudo isto?
– A mim – diz o rapaz – parece-me que por mais que procuremos fazer o que parece bem aos outros o povo arranja sempre uma maneira de julgar mal o que fazemos.
– Ora nem mais. É isso mesmo. Se tudo o que fazemos for só de acordo com o que os outros pensam nunca chegamos a realizar nada à nossa vontade. Nós é que sabemos de nós e do que nos convém. Por isso só nos podemos decidir o que devemos fazer de acordo com a nossa consciência.
…E prosseguiram na sua caminhada, sem dar ouvidos a mais quaisquer vozes ou comentários. Agora a única voz que lhes interessava era a da sua consciência.
E foi uma caminhada leve, sem mais perdas de tempo e muito proveitosa, pois
cada um sabe de si,
Deus de todos sabe;
e que, aqui,
o conto acabe.
  
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Análise do conto
Características básicas
Esta narrativa é pouco extensa e o narrador não participa na história, classificando-se por isso como narrador heterodiegético. Um aspeto curioso acerca do narrador é que este “lança” palpites sobre o que acontece, isto é, vai comentando diversas peripécias da história. Exemplos: “(…) Vamos chamar a “protetora dos animais”, vamos chamar a guarda, vamos chamar o padre, vamos chamar o regedor, vamos tocar o sino a rebate, vamos… vamos… vamos… – aquilo é que era lançar ameaças!”; “Ora esta, esta agora! Que problema complicado! Parece não ter solução.
As personagens são poucas e, deste modo, fáceis de memorizar. O burro Flor, o velho Florêncio e o rapaz Florindo são as personagens principais do texto. As pessoas que iam aparecendo à medida que o trio seguia a sua viagem, representando o povo, são classificadas como personagens secundárias.
A história tem um enredo e uma estrutura simples. Apesar de não estar dividido em capítulos, é muito fácil distinguir uma introdução, um desenvolvimento e uma conclusão neste conto. A introdução é constituída pelos dois primeiros parágrafos, nos quais são apresentadas as personagens principais e são-nos dadas algumas informações sobre elas onde se encontravam, para onde se dirigiam, o que levavam,… – ajudando-nos a contextualizar na história. O desenvolvimento vai do terceiro ao antepenúltimo parágrafo. No desenvolvimento é narrada a viagem do trio a caminho da feira, a qual é interrompida várias vezes pelos comentários mesquinhos do povo. Da conclusão fazem parte os dois últimos parágrafos, sendo apresentado o desfecho da história, que neste caso traduz também uma mensagem, um ensinamento.
Uma outra característica é que quase não existem marcas do espaço e do tempo e, quando as há, são muito vagas. Exemplos: “Iam um velho chamado Florêncio e um rapaz chamado Florindo pela estrada fora a caminho da feira.” – marca de espaço; “E assim ficaram um bom bocado, mudos e quedos (…)” – marca de tempo.
Este texto narrativo apresenta as características básicas de um conto bem definidas sendo, por isso, um bom conto.   

                                                                                                                                                                    9
        

Recursos Expressivos

Os recursos expressivos são indispensáveis num texto narrativo, pois dão outro encanto à história e captam a atenção do leitor. Neste caso, é ainda mais importante este último aspeto dado que, apesar de este ser um conto para todas as idades, as crianças são o público-alvo. Deste modo, torna-se fundamental repetir determinados aspetos e fazer o ponto da situação várias vezes ao longo do texto, para que a criança consolide cada momento da história e assimile mais facilmente a informação que lhe é dada. Exemplo: “Agora é que o velho e o rapaz não estavam a perceber nada. Afinal o que é que o povo queria? Quando iam os dois a pé, falaram; quando iam os dois no burro, falaram; quando ia o rapaz no burro e o velho a pé, falaram; quando ia o velho no burro e o rapaz a pé, falaram. Mas que grande confusão!” – o narrador faz o ponto da situação: recorda todas as críticas do povo ao longo da viagem. O apelo às sensações visuais, auditivas, etc, é também um fator relevante neste processo. Exemplos: “Com eles – toc-toc-toc – ia o burro Flor (…)” e “o velho Florêncio e o rapaz Florindo seguiam a pé, assobiando e cantarolando” – sensações auditivas; “até que o velho se levanta, empertiga a barriga, puxa da sua voz grave e, com ar douto, diz (…)” – sensações visuais. O “toc-toc-toc” constitui uma onomatopeia. Eis alguns recursos expressivos encontrados ao longo do conto:
Anáfora: Vamos chamar a “protetora dos animais”, vamos chamar a guarda, vamos chamar o padre, vamos chamar o regedor, vamos tocar o sino a rebate, vamosvamosvamos…”
Apóstrofe: “– Ó Florindo, olha lá, meu rapaz, então que estamos nós a fazer aqui, preocupados com o falatório dos outros?”
Adjetivação expressiva/Antítese: “Certo era ir o rapaz no burro, que é mais leve e ainda fracote, e o velho, que é mais forte e pesado, a pé.” (leve pesado, fracote (fraco) – forte)

                                                                                                                                                                 10
 
Enumeração: “Quando iam os dois a pé, falaram; quando iam os dois no burro, falaram; quando ia o rapaz no burro e o velho a pé, falaram; quando ia o velho no burro e o rapaz a pé, falaram.”
Mensagem do Conto

O momento chave da narração é quando o velho e o rapaz percebem que dar valor às críticas do povo não passa de uma grande perda de tempo: “– Ó Florindo, olha lá, meu rapaz, então que estamos nós a fazer aqui, preocupados com o falatório dos outros? Mas, afinal, quem é que sabe da nossa vida? Quem é que sabe o que nos convém? Quem é que sabe o que andamos a fazer e porque fazemos desta ou daquela maneira?”. O velho e o rapaz compreenderam que era impossível agradar a todos, e que o melhor a fazer era prosseguir viagem e não prestar atenção ao que o povo dizia, pois cada um tinha a sua opinião.
A lição que se retira deste conto é, portanto, não dar ouvidos a tudo o que nos dizem. Esta mensagem encaixa perfeitamente no nosso dia a dia. Efetivamente, cada pessoa tem a sua experiência de vida, os seus ideais, a sua forma de pensar. O pensamento dos outros não tem que ser, necessariamente, melhor que o nosso. Aliás, opiniões são opiniões, valem o que valem. Assim, antes de fazermos o que quer que seja só porque alguém nos critica ou diz que é melhor desta ou daquela maneira, é fundamental pensarmos por nós próprios e tirar conclusões acerca do assunto em causa. Só depois devemos confrontar o nosso pensamento com os pareceres dos outros. Afinal, cada um é dono de si, e “só quem está no convento é que sabe o que lá vai dentro”.
Concluo este ponto com uma publicação que vi no Facebook há dias:
  



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Bibliografia

            O único site que utilizei para a concretização deste trabalho foi o Facebook – local de onde retirei a informação relativa a Elsa Pestana Magalhães (pois, como já referi, não há mais nenhum site que revele dados da escritora) e a publicação apresentada na página anterior. Todo o trabalho foi feito com base no livro “O velho, o rapaz e o burro” e nos meus conhecimentos.


Conclusão

            Escusado será dizer que este foi um trabalho que me deu bastante gosto fazer, por se tratar de uma recordação da minha infância, como expliquei na página 4.
Não tive grandes dificuldades durante a realização do trabalho, dado que o texto apresenta um vocabulário e frases bastante simples, com uma história apelativa e de fácil compreensão. Por momentos, tive receio de que a história fosse demasiado infantil; no entanto, essa incerteza depressa desapareceu quando li, na contracapa do livro, “Uma história para deleite de crianças e de jovens dos 0 aos 100 anos de idade”. O melhor dos contos é que são intemporais, podem ser lidos em qualquer altura das nossas vidas e aprendemos/relembramos sempre qualquer coisa importante com eles.
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