sexta-feira, 9 de março de 2018

Crónica do mês _março

Crónica do café 

Um galão. Um misto. Um donut com cobertura estranha de tons alaranjados, para um miúdo que, agarrado à camisa da mãe, chorava desalmadamente por eles, há uma boa meia hora. 
Podiam-se ouvir os sons de pratos a baterem fortemente nas mãos da empregada. Devia estar a ter um mau dia, apesar de sorrir amavelmente para as velhotas à minha frente, na fila, que comentavam a sua beleza e a das colegas. 
Os mini cartazes pretos e vermelhos em frente a cada pedaço de comida exposto, causavam-me náuseas e desconforto, por não saber o que escolher. 
Apercebo-me, de repente, já sentada com uma meia de leite e um pão com manteiga, muito pouco generoso, à minha frente, que é muita a gente no café! Talvez seja levada, como eu, pelos mini cartazes ou pelos baratos menus de 1$, que não matam a fome a ninguém, mas que, como tão lindamente ilustrados estão, satisfazem mais de metade da fome só através dos olhos. 
Tento repousar no banco de que me apropriei do lado esquerdo do estabelecimento. Sinto o cheiro a velhinhos que envolve todo o ambiente. Debato-me, por momentos, se os jovens também possuem assim um cheiro característico. 
Vagueio-me pelos pensamentos durante a eternidade que demoro a acabar a minha refeição. Muito boa gente passa por mim durante o meu devaneio no lanche. Fixo algumas e tento escrever sobre elas nas notas do meu telemóvel, só que a inspiração vai-se embora rapidamente e não me deixa concluir as suas histórias. 
Deixo-me então usufruir do fumo que sai da chávena de café que o senhor de bigode, à minha frente, sopra devagar; do cheiro a naftalina que as sete senhoras que já passaram pelo meu banco deixaram; do sabor seco deixado na minha boca, pelo pão com pouca manteiga. 
E desfruto assim, do meu momento no café. 

Camila Gonçalves

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