sábado, 14 de abril de 2018

Crónica do mês_abril

Diabo da Tasmânia

É incrível como julgamos as pessoas, tão de repente e nos enganamos redondamente!
Isto já me sucedeu diversas vezes, mas a que venho hoje relatar tocou-me particularmente.
Estava eu no conservatório de música, pronta para conhecer o novo professor de Classe de Conjunto. Sussurros dos meus colegas diziam que ele já se encontrava na sala a tocar e alguns, tentavam ouvir através de porta. Eu, mais audaz, espreitei pela fechadura. E foi amor à primeira vista.
Não um amor romântico de casal, mas sim um amor etéreo, celestial, divino. Não conseguia desviar o meu olho direito das grandes mãos que percorriam um violoncelo, ainda maior. Quem tocava não era um homem, era um deus!
A peça que tocava era triste, mas enérgica, vigorosa. Um grito de libertação! As imagens que guardei na memória não são a música completa, muito menos o músico, pois a minha visão ficou muito reduzida ao formato da fechadura.
Quando terminou, arrumou o violoncelo e encaminhou-se para a porta, fazendo-me fugir dali, com medo de ser apanhada. Abriu a porta e pude ver o meu deus idealizado. Não era particularmente bonito, a meu ver, mas como tinha um visual diferente (alto e gordo de cabelo atado) eu aceitei-o como o meu deus músico.
Contudo, já na sala de aula, tudo se desmoronou quando ele começou a falar. Irritante, mal-humorado, convencido, toda a sua personagem se tornava um pouco exagerada.
Na altura em que tive aulas com ele, parti o braço esquerdo, na educação física. Chamei-lhe uma bênção! Claro que o bruto, ex-deus da música, teve que passar aulas inteiras a fazer piadinhas sobre o meu pobre bracinho e ainda exigiu o direito de autografar o gesso, desenhando nele um violoncelo.
No fim de contas, já farta de o aturar, dei-lhe uma alcunha. Sempre me tinha interrogado se ele teria ascendência árabe ou indiana, pois possuía um tom de pele escuro, invulgar. Chamei-lhe “Diabo da Tasmânia”. Para mim, era simplesmente perfeito! Após umas breves pesquisas, descobri que a Tasmânia era na Austrália e não perto da Índia, como eu supunha. Mantive o nome, apesar de também ter descoberto que o animal, “Diabo da Tasmânia”, não passa de um urso pequeno, esquisito e fofinho.
Após 2 anos deste grande acontecimento, considero que até nem foi assim uma grande desilusão conhecer aquele professor. Afinal, já me valeu uma crónica!
Camila Gonçalves

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