quarta-feira, 9 de maio de 2018

Crónica do mês_maio

No prédio da senhora Ermelinda é tudo gente que odeia janelas abertas. Até há uns, com ar de ingleses manientos, que aprisionam o gato gorducho na varanda, todos os domingos à tarde e às quintas de manhã. Fecham os estores e nem se sabe se lá ficam ou se vão laurear a pevide. 
Ora, quanto à dona Ermelinda (pobre nome que lhe deram), só abre a janela para vir estender a roupa, religiosamente, todas as terças, sextas e sábados. Sei que tem um filho, daqueles adolescentes borbulhentos, que de certeza tem o mesmo pavor às janelas, pois desde que os observo, ele só abriu a dele três vezes: uma para ajudar a mãe a estender a roupa, outra para regar uma planta que jaz morta a um canto da varanda e uma última, para fumar o seu primeiro e último cigarro às escondidas. Estava tão atrapalhado que o deixou cair duas vezes, sendo que da segunda foi parar à varanda do vizinho do primeiro andar, criando problemas no condomínio. Tiveram que chamar o administrador, que veio de Lamego, de propósito, só para assinar uma declaração que afirmava: fumadores só na zona das garagens e só nos dias de semana, porque ao sábado e ao domingo vinham os miúdos brincar e não se queria dar tal ambiente à criançada. 
Sei isto, porque moro no prédio em frente e velha como já sou, o meu tempo livre prolonga-se infinitamente. Dedico-me às atividades habituais das velhas da aldeia que cochicham sobre quem entra e sai e porquê e a que horas. Mas faço isto sozinha, porque não sou de misturas! 
É um prédio estranho, o da dona Ermelinda!

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