domingo, 10 de junho de 2018

Texto de opinião

Há uns tempos, li numa rede social uma carta escrita por uma rapariga da minha idade e dirigida ao IAVE. Era uma carta de alguém revoltado, alguém que se recusava a aceitar o sistema de ensino em Portugal. Algumas das críticas principais eram o facto de os exames não respeitarem a individualidade e o esforço das pessoas ao longo dos anos em que frequentaram a disciplina, e o facto de o governo não respeitar que cada um de nós tem maneiras diferentes de lidar com situações stressantes. Basicamente, a conclusão era que os exames deviam acabar.

Tal como a autora da carta, eu não sou pessoa de me conformar. Mas começo por assumir que nem tudo tem de ser mudado. Os exames não são só aconselháveis, são imprescindíveis. São eles que nos põem em pé de igualdade quando as escolas que frequentamos não o fazem. São, obviamente, um peso nos nossos ombros; no entanto, são um peso para todos. 

Li também há uns dias, um artigo do tipo inspirador, que motivava o leitor a "ser o que quiser". Dizia que há profissões como provador de chocolates ou viajante profissional, e que o céu é o limite. A minha geração cresceu a ler este tipo de coisa. Crescemos a ganhar prémios por participarmos e não por vencermos, e ficamos frustradíssimos quando descobrimos que isso não acontece a nível profissional. Afinal de contas, ninguém nos preparou para a realidade. 

Nem todos nós estamos destinados a ser médicos ou advogados. "Os médicos convivem com pessoas e não apenas com máquinas", dou razão à autora da tal carta nesse aspeto. Mas nenhum médico salva vidas só com simpatia. Cada um de nós tem de encontrar a sua vocação: algo que nos dê prazer fazer, e ao mesmo tempo, algo em que sejamos bons. Ter prazer não basta.

Em relação ao sistema de ensino, e pondo a questão dos exames de parte, há realmente muito a mudar. Este sistema foi criado há dezenas de anos, e inspirado num outro, criado durante a revolução industrial. Nessa altura, a grande maioria dos alunos ia acabar a ser operária em fábricas. Portanto, os objetivos de aprendizagem eram coisas como conseguir cumprir instruções, ou rapidez e eficiência de fabrico. Ao fim de tantos anos, os objetivos deviam ter mudado. Vivemos numa sociedade em que o empreendedorismo é altamente valorizado, e cada vez mais empresas vão em busca de pessoas com espírito de iniciativa, com ideias que não se enquadram e que podem mudar o mundo. 

No entanto, a escola não nos prepara para isso. Tomemos como exemplo a matemática. Em matemática, os conceitos são-nos entregues e despejados. Salvo raríssimas exceções, quando eu pergunto o porquê de x acontecer assim, de onde veio, nunca há uma resposta mais longa do que "não precisas de saber isso". Há imensos alunos com um ódio de estimação pela disciplina, e é fácil perceber porquê. Não percebemos para que serve, e somos obrigados a decorar fórmulas que não sabemos quando vamos usar na vida real. A matemática está a toda a nossa volta, em todas as nossas vidas, mas somos obrigados a estudá-la de palas nos olhos.

Outro dos campos que devia ser mudado é a organização das turmas, que deviam ser adaptadas ao ritmo de aprendizagem de cada um. Esta hipótese anda a ser debatida em todo o mundo há anos, e acaba por ser destruída. Os pais não querem que os seus meninos se sintam pouco especiais ao serem colocados numa turma que, aos seus olhos, seria a "turma dos burros". Não veem que teria vantagens para todos. Neste momento, tanto os melhores como os piores são obrigados a andar a um ritmo médio. Os bons alunos ficam facilmente entediados, sentem que não são suficientemente desafiados. Enquanto que os piores sentem-se frustrado por sentirem que não acompanham o ritmo que acham que devem. Dividindo os alunos por ritmos, e não por faixa etária, cada um se sente mais motivado para progredir, e pode avançar de grupo em grupo. Para isto, as turmas terão de ser bastante mais pequenas, de modo a que cada aluno consiga ser acompanhado da maneira que precisa e que merece.

A lista de aspetos a melhorar no sistema de educação não é infinita, mas não está longe de o ser. Penso que cabe à minha geração, e a todas as que vierem depois, parar de se queixar e fazer o máximo que pode. Choramingar em redes sociais não vai trazer a mudança até nós. Mas se tentarmos chegar longe, e tivermos a formação e as oportunidades necessárias, podemos ser nós a alcançar a mudança.
Matilde Ribeira

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