quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Crónica do mês_Janeiro

Quando tinha oito anos decidi que queria furar as orelhas. Os meus pais tinham preferido deixar essa decisão para mim, em vez de o terem feito quando eu ainda era bebé. Portanto, lá fomos. 

Tenho vagas recordações do dito dia, mas sei que fomos à ourivesaria/ótica onde habitualmente comprávamos os nossos óculos. Lembro-me de que o ourives/oculista me disse que se não chorasse não teria que pagar pelo par de brincos que levaria nas minhas orelhas. Então engoli o meu orgulho e não deitei nem uma lágrima (não que tivesse custado muito, foi como levar uma vacina, razão pela qual também nunca chorei). 

A parte triste de toda esta história é que as minhas orelhas reagiram mal à operação: infetaram. Apesar de termos cumprido com todas as instruções que nos foram dadas (desinfetar com álcool e rodar os brincos diariamente durante 15 dias), acabei por ter que os retirar, de forma a combater a infeção que se instalara. Quando relatámos esta situação ao médico que me seguia nas consultas de alergologia, fui aconselhada a esperar alguns anos e mais tarde voltar a tentar. 

Ora, quase a fazer dezoito anos, decidi que queria furar novamente as orelhas. O meu pai agoirou muito, com mais medo que eu que sucedesse o mesmo que na primeira vez. A minha mãe disponibilizou-se logo a procurar o lugar ideal para repetir a operação. 

Escolhemos a ourivesaria muito recomendada por amigas e colegas, mas quando lá chegámos não se encontrava o senhor responsável por dar o tiro nas orelhas. Naquele dia o pistoleiro não se encontrava a trabalhar! 

Um pouco desanimadas, seguimos rua fora e eu ainda incentivei a minha mãe a entrarmos noutras ourivesarias que por ali havia, tal era a minha vontade de ir para casa de orelhas furadas! De repente a minha mãe apontou para uma dessas lojas e disse: 

- Acho que é aqui que o nosso antigo ourives/oculista trabalha agora! 

Ao recordar aquela minha primeira vez, pensei que poderíamos dar uma espreitadela, talvez também furassem orelhas! A minha mãe disse logo que o ourives/oculista poderia nem estar lá, que aquele sítio era muito pequeno e nem deviam fazer aquele tipo de serviço. Mas lá acabamos por entrar. E não é que o tal senhor estava mesmo lá! Ou seja, quase dez anos depois, o senhor que me furou as orelhas aos oito anos, voltou a ter o prazer de as furar novamente e ainda brincámos pelo facto de eu tornar a não chorar! 

Por vezes há coincidências que não conseguimos bem explicar… Há quem lhes chame destino! 

Camila Gonçalves

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